terça-feira, 3 de julho de 2007

Sobre fatos e boatos: A Universidade evacuada

Profª Ângela Viana Machado Fernandes.
Deptº de Ciências da Educação
UNESP Araraquara

Há um tempo atrás, quando fui convidada a desenvolver um trabalho junto à polícia militar, sobre prevenção as drogas nas escolas, obtive a informação de que existia um trabalho que já estava (está) sendo desenvolvido pela polícia nas escolas públicas denominado PROERD. Este projeto tem o objetivo de prevenir o uso de drogas por crianças e adolescentes.

Naquele momento fiquei surpresa, pois entendia (entendo) que educação, prevenção devia (deve) ser feita pelos professores, ou seja, por quem faz parte do processo educativo e que a polícia não devia (deve) entrar na escola pública. Entretanto este espaço foi ocupado pela polícia, pois os professores assim permitiram.

Em outro momento, fui convidada a dar um módulo de aulas aos guardas municipais de Araraquara no intuito de esclarece-los sobre as características da criança e do adolescente e que tipo de projeto poderiam desenvolver junto à comunidade. Em um curso de 30 horas (se não me engano) não consegui cumprir o objetivo, tal o desinteresse pela educação e o desrespeito pela minha pessoa por parte dos alunos. Ingenuamente acreditava que poderia contribuir para que a guarda municipal tivesse um olhar diferente sobre o que é ser cidadão e quais direitos devem ser assegurados.

Este mês foi um mês cheio de turbulências em minha vida. Primeiro porque faço parte de um grupo que desde o ano passado redigia um estatuto para a criação da Comissão de Direitos Humanos em Araraquara, dado ao desrespeito policial pelos cidadãos que não usam crachá e pela morte de dois jovens no Jardim das Hortências.

Ás vésperas do feriado de Corpus Christi, recebi um telefonema de uma aluna que pedia ajuda, pois um de nossos alunos, professor do CUCA de Boa Esperança, havia sido espancado por dois policiais naquele município. Este aluno, dado seu capital cultural, fez exame de corpo delito, foi à delegacia e denunciou os policiais, que o levaram em viatura a uma rua deserta e lhe deram uma surra, pois este mesmo aluno ao assistir uma abordagem (como na gíria policial) violenta, comentou que só faziam isso, pois estavam fardados.

Após este episódio, quando da tomada da sala da direção por alunos, fui a uma Congregação e solicitei que os docentes ali presentes pensassem bem sobre o que seria abrir um precedente de entrada da polícia na Universidade. Isso foi colocado, pois eu já sabia, através de denúncias o que estava ocorrendo dentro da FEBEM, hoje Fundação Casa.

Enfim, esta semana, na terça de madrugada, na calada da noite a polícia invade a FCL e retira “sem violência” os alunos e os leva para o 5° DP. A partir daí todos sabemos o que aconteceu. Na quarta-feira não consegui trabalhar, um gosto acre invadia meu corpo e um choro contido de não sei o que.

Ontem fui á FCL e fiquei das 13.00hs até as 17.20hs, quando saí para uma reunião do Grupo de Direitos Humanos. Senti que mesmo o cotidiano já diferente, nada de fato ocorria. Dia comum matrícula de pós-graduandos, algumas orientações. E, infelizmente, por volta das 18.00, soube por professores e alunos que não poderiam entrar no Campus, pois a polícia impedia a entrada de qualquer um. A Universidade havia sido evacuada. O boato de que um ônibus vindo da USP poderia chegar ao Campus (O que fariam eles? Estariam armados? Quebrariam a universidade?).O boato tomou conta do fato e de novo senti aquele gosto acre e um enjôo que não me abandou durante a noite. Eu não acredito na polícia dentro da escola pública e tão pouco na Universidade Pública e não posso apoiar que haja a evacuação da Faculdade desde que não haja riscos para as pessoas que ali estão, ou será que estamos no Iraque?

Nenhum comentário: