quinta-feira, 12 de julho de 2007

Programação

Ocupa IA!

A Ocupa já acabou, mas as fotos estão aí.
Agora é lembrar para não esquecer!



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A imparcialidade da Mídia

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Alguns princípios deste Coletivo

Após a primeira reunião deste Coletivo, ficou decidido que alguns dos princípios que nortearão o Coletivo Mobiliza são:
  • A mobilização permanente;
  • O direito de voz e voto a todos;
  • Independência em relação a movimentos e a partidos políticos;
  • Independência material;
  • Reapropriação dos Espaços Públicos;
  • Unidade de luta dentro e fora da Universidade,
  • Organização de Grupos de Trabalho.

domingo, 8 de julho de 2007

Sartre, a Tropa de Choque e o Silêncio dos Inocentes

Ronan Gomes Gonçalves
Ex-aluno da UNESP

A Unesp de Araraquara entrou para a história. Há bons anos atrás –em 4 de setembro de 1960- o campus caipira promoveu evento acadêmico com notáveis dentre o público e com outro grande notável, - intelectual e esquerdista-, que se destacou na história da filosofia mundial: Sartre. Aquele grande evento que reuniu a nata da intelectualidade nacional contrasta com o tom cinzento dos professores de hoje e com o outro grande fato histórico: a expulsão dos alunos ocupantes da diretoria da unidade em 20 de junho de 2007, por intermédio de uma ação efetuada pela tropa de choque, no meio da madrugada. Tempos atrás, a Unesp de Araraquara atraía ônibus de intelectuais e um grande nome do século XX. Passados 47 anos, a Unesp de Araraquara atrai ônibus de policiais militares, para depois lotá-los com alunos, numa belíssima excursão rumo à delegacia. O que sucedeu? Será que de tanto pesquisar as condições sociais em seu redor as chefias acadêmicas da Unesp de Araraquara decidiram copiar os métodos de gestão levados a cabo pelos latifundiários e usineiros da região?

A retirada forçada dos alunos ocupantes pela tropa de choque é um ato numa teia muito vasta. Nessa teia podemos contar a extrema hierarquia que rege as universidades, nas quais se pretende que apenas os professores é que são dignos de se pronunciarem e se manifestarem sobre ela e o horror aos pobres, que acomete boa parte da classe média.Nem só de Sartre, Antônio Cândido e Fernando Henrique Cardoso, assim como, nem só de tropa de choque vive a Unesp de Araraquara. Nos últimos tempos temos visto ser criada uma corrente de opinião e uma prática gestorial de criminalização das lutas estudantis dentro de toda a Unesp. Se a Unesp de Araraquara se destacou ao trazer ao seu recinto um intelectual do porte de Sartre, não é pioneira com relação à tropa de choque. Desde a gestão do antigo reitor José Carlos Souza Trindade (2001-2004) que a tropa de choque foi incluída como elemento do diálogo com as lutas estudantis. Foi tal reitor que se preocupou em transferir as reuniões do Conselho Universitário para cidades mais afastadas, procurando, assim, evitar que lá chegassem os estudantes e, ainda, incluiu a tropa de choque nas portarias dos prédios onde se realizavam tais reuniões.

O que é curioso, realmente curioso, é o fato de a vinda de Sartre ter se tornado objeto de pesquisa, enquanto a prática de inclusão da tropa de choque no diálogo com as lutas estudantis nunca ser objeto de estudo. Para Sartre, eventos comemorativos, dissertações, teses, publicações. Para as lutas estudantis, não há um único grupo de pesquisa em toda a universidade, desconhecem-se dissertações e teses, publicações, etc. A prática de repressão e criminalização das lutas estudantis dentro da Unesp tem sido corroborada com o silêncio dos inocentes. Das várias entidades estudantis, dos vários grupos de pesquisa, dos milhares de pesquisadores, não há um único eco das botas e cassetetes, dos gritos e palavras de ordem, do trabalho de formiga efetuado pelos que resolveram não abaixar a cabeça e reivindicar coisas tão simples e necessárias como moradia, almoço, transporte, livros. A memória das lutas estudantis e dos problemas que ela encerra é levada acabo pela própria luta. Daí que tais lutas possuam, além de um incomensurável valor pedagógico, a capacidade de preservar minimamente uma memória coletiva. Mesmo neste ano de 2007, no qual a ocupação efetuada por alunos na USP pôs a nu a precarização interna da universidade estatal e sua lógica privada, não são os alunos que são chamados a escrever nos jornais, dar entrevistas, participar de debates na televisão, escrever artigos. Dessa forma, os alunos vão à frente lutando e tomando as punições e os professores e intelectuais vão atrás escrevendo. Mesmo dentre os que pretensamente apóiam a luta dos estudantes fica claro a forte hierarquização interna, onde uma minoria de professores é chamada a falar pela maioria dos estudantes. Como tais professores não participam diretamente das lutas só possuem generalidades a afirmar e não podem contribuir com a construção de uma memória coletiva.

A falta dessa memória incapacita pessoas alheias às lutas estudantis de se aperceberem de fatos nunca mencionados nos sites e jornais. A repressão na Unesp tem atingido os vários campi que sempre se destacaram como locais de luta e resistência. O ostracismo a que a grande mídia condena as lutas estudantis na Unesp impossibilitou à opinião pública ter conhecimento de que essa universidade, a menos elitizada das estatais do Estado de São Paulo, foi palco das mais profícuas lutas que ocorreram nas universidades paulistas nos últimos dez anos. Quem souber, por exemplo, que a moradia estudantil da Unesp de Marília foi fruto de uma ocupação de 4 anos (1986-1990), na qual alunos moraram por esse período em sala de aula – resistência para Mandela nenhum botar defeito-, talvez se assuste de sua própria ignorância dos fatos.

Os campi da Unesp de Araraquara, Marília, Franca, Assis, Presidente Prudente, Bauru, São Paulo, sempre se destacaram enquanto locais de lutas estudantis. São justamente os campi que alojam os cursos de humanidades e licenciaturas, para os quais acorre uma parcela mais precarizada de alunos, muitos deles beneficiados com as isenções de vestibular distribuída pelo Estado e, portanto, necessitados da política de inclusão universitária, consubstanciada nas bolsas para alunos carentes, moradias, subsídios em restaurantes universitários, transporte, etc. Foram esses estudantes que ao longo dos anos, tal qual no exemplo da moradia de Marília, obrigaram as chefias egoístas da universidade a criarem políticas de inclusão universitária, possibilitando, minimamente, que os alunos carentes sócio-econômicamente pudessem realizar seus cursos e não abandoná-los, como gostaria uma parcela ressentida. A Unesp de Araraquara se inseria num amplo espectro de mobilização e lutas estudantis.

Para a realização dessa mobilização vários fatores contribuíam. Um, muito importante, era o acesso aberto que os alunos tinham com relação à infra-estrutura da universidade. Na gestão do antigo reitor Antônio Manoel (1997-2000), de 1999 em diante, desbravou-se movimentos de ocupação por moradias estudantis em vários campi: Araraquara, Marília, Assis, Rio Preto, Bauru, São Paulo, Presidente Prudente. Essas ocupações vinham na continuidade das ocupações anteriores e eram reforçadas com encontros de moradia, também encontros mensais dos estudantes, os chamados Encontros de Entidades Estudantis da Unesp. Havia muitas viagens para protestos na capital paulista, local onde se encontra a reitoria. Todas essas viagens eram facilitadas pelo fato de os alunos poderem utilizar os ônibus de cada unidade. As ocupações de reitoria eram feitas utilizando os ônibus das faculdades para irem até São Paulo. Os alunos se alimentavam (lanche de mortadela, queijo – o X-luta) com a ajuda de custo que eles conseguiam das direções para as viagens, idem dos sindicatos, alguns professores. Os alunos, além de usufruirem da solidariedade de outros setores, conseguiam obrigar as chefias das distintas faculdades a fornecerem os meios materiais para eles fazerem a sua luta. Assim como elas fornecem a estrutura para as empresas hoje, para os gestores do poder público, etc.

Não só os ônibus eram utilizados livremente pelos estudantes, mas também as salas e os espaços, para alojarem os congressos, as reuniões, as festas que arrecadavam fundos, os eventos de discussão política e discussão pública, as salas de vídeo, os laboratórios de fotografia. Com auxílio das chefias e demais estudantes, os alunos mais ativos faziam jornais, fanzines, eventos culturais, de poesia, musica, etc. Os alunos da Unesp, por comparação com os da USP e Unicamp, têm a distância entre os campi a vencer se quiserem se mobilizar de forma mais coletiva, e para isso a utilização da infra-estrutura da universidade era essencial, tudo o que contribua para ampliar os laços entre os estudantes é bem vindo. Lugar para os alunos de outros campi dormirem, meios de transporte, etc. Naqueles anos, os alunos não necessitavam de autorização de professor para solicitar a utilização de ônibus, salas, vídeos, câmeras, e nem eram obrigados a ter um professor acompanhando as viagens. As festas não eram proibidas e a maior abertura dos campi possibilitava um trânsito mais livre de estudantes entre as várias unidades. A própria Unesp de Araraquara alojou um encontro geral de estudantes em 1999 que não seria permitido hoje.

Num tempo em que o PT não estava ainda no poder, a UNE não era um departamento governista como hoje e os alunos, vez por outra, podiam contar com alguma ajuda material numa excursão de protesto que servia para eles irem estreitando os seus laços, fazendo suas lutas. A UNE hoje é uma subsecretaria do Ministério da Educação e junto com a UEE recebe somas vultosas do governo e anda angariando patrocínio de parceiros de luta como o Santander. Aliás, esse mesmo Santander andou patrocinando evento anticapitalista, onde se discutiria teoria crítica, na Unesp de Marília.

A limitação de acesso estudantil às infra-estruturas da universidade, que não foi combatida por nenhum professor - em sua ânsia egoísta de controlar tudo -, foi um dos aspectos contribuintes para o enfraquecimento de um forte movimento estudantil. A proibição de realizar festas, encontros, eventos, o fim do patrocínio para as publicações estudantis, tudo isso foi fator importante para desalojar os estudantes de uma verve institucional mais ácida. A batida em retirada num sentido governista e/ou empresarial das entidades estudantis, a saída normal, dado a formatura, dos alunos mais empenhados nas lutas estudantis, a ausência de associações de ex-alunos, a vaidade que impede que os alunos existentes convoquem antigos alunos para falarem de suas experiências de luta, a inexistência de pesquisas sobre as lutas estudantis, projetos que preservem tal memória somaram-se a esses dados.Como os campi com maiores incidência de luta eram os campi de humanas, buscou-se, com a expansão de vagas a partir de 2003, introduzir cursos de exatas e biológicas, ou cursos mais caracterizadamente mercadológicos nesses mesmos campi. O aumento da heterogeneidade sócio-econômica e cultural, a falta de tradição de luta desses novos membros e a presença de uma clientela sem problemas econômicos foi fator decisivo para esmorecer os processos de luta.Essa expansão não seguiu apenas critérios pedagógicos.

A Unesp de Araraquara está numa linha fascista já faz um certo tempo. Foi lá que, inconstitucionalmente, a Congregação baixou decisão proibindo manifestações de alunos, distribuição de cartazes, etc. O Diretor, Cláudio Gomide, para fazer o que fez, não está sozinho. Está muito bem respaldado num professorado elitista, egoísta e conservador. Professorado que há tempos vem buscando a guetificação das unidades universitárias, seu desligamento dos movimentos sociais, o acentuamento da hierarquização, o controle exclusivo sobre as estruturas. Estão, por sua vez, auxiliados por uma parcela de alunos conservadora e também egoísta nos campi, que desejosos de servirem o mais rápido ao capital, servos voluntários, ressentem-se de qualquer de seus pares que pensem e façam diferente. A repressão sobre os alunos hoje não pode ser desvinculada do crescente fim de um consenso intra-universitário de apoio às lutas sociais, de um clima moral interno de apoio aos estudantes mais precarizados, de anseio pela democratização interna. Daí que se proliferem as manifestações, muitas vezes raivosas, contra as lutas estudantis, mas esses mesmos que se manifestam contra as lutas não se incomodam com a exploração de trabalho gratuito de alunos, efetuada por professores; com o fato de haver trabalhadores terceirizados recebendo um salário mínimo, trabalhadores ditos braçais estáveis, mas que ganham setecentos reais por mês, o usufruto privilegiado que as empresas fazem das estruturas e tantos outros exemplos de desigualdade e injustiça social que faria da universidade um excelente exemplo de pesquisa, se esse fosse o interesse dos pesquisadores.

O mais problemático é perceber na Unesp o fim de uma cultura de união entre os alunos mais pobres. Uma imagem vem-me sempre à mente: a saída conjunta de todos os estudantes da moradia estudantil da Unesp de Marília para participarem de uma reunião com a então vice-diretora da unidade, em 1999, quando a direção pretendia expulsar um aluno da moradia. Não vou me estender em minúcias, basta citar que nesse dia - único na vida -, os estudantes chegaram a fazer a gestora chorar dado o teor do debate e do confronto verbal. No mesmo ano de 1999, dado a possibilidade de a tropa de choque ir desalojar os estudantes do campus de Rio Preto que estavam ocupados na luta por moradia, alguns alunos da Unesp de Marília juntaram suas moedas e foram a Rio Preto prestar solidariedade aos seus pares. Ou lembrar dos colchões e mantimentos, também da ajuda financeira, que o movimento de ocupação de 1999 em Marília recebia de vários alunos, funcionários e alguns professores.

Nos últimos anos as moradias estudantis têm perdido a cultura de identidade que possuíam, perdido também o orgulho de serem os alunos mais precarizados que contra tudo e contra todos conseguiram passar pelo filtro sócio-econômico que é o vestibular das universidades estatais. Nunca mais vi camisetas como aquela que dizia: Sou da Moradia, Sim Senhor e que, ao lado do desenho das casas existentes, tinha desenhado as futuras moradias, que a luta estudantil ia conseguir e conseguiu. Sumiram as festas com objetivo de sociabilididade e grassam as festas com objetivo de ganhos monetários, onde a classe média pode se distinguir por poder pagar os ingressos cobrados. Passa a contar a roupa de grife, a detenção de cursos de língua, praticas culturais elitistas como rapel, tênis. Os alunos pobres deixam-se envergonhar por serem pobres, abraçam a perspectiva dos mais bem nascidos, aceitam, como ocorreu numa festa da Relações Internacionais em Marília (2005), que seguranças a serviço de tais alunos espanquem dois alunos pobres. Será que se fossem filhos de um promotor, um gerente de banco, os seguranças teriam agido tão tranqüilamente e os estudantes teriam dado a ordem tão facilmente?

A tropa de choque em Araraquara é apenas o aspecto de um amplo processo. Muitos poderão, tranqüilamente, refazer as suas consciências. O papel da tropa de choque é bater, o dos policiais reprimir. Mas para que a tropa de choque venha desfilar onde antes desfilou Sartre, muita coisa há de mudar. Como lembrou um professor da Unesp de Marília, a policia que hoje está voltada para os estudantes pode estar voltada, a futuro, contra os próprios professores. Quem duvida disso deve ler o memorial do Maurício Tragtenberg, ou Florestan Fernandes, no O Livro Negro da USP. Saber, por exemplo, que alguns professores da rede estatal fundamental e média foram exonerados depois da greve de 2000.Enfim, mudanças tão bruscas requerem uma reflexão e uma investigação mais aprimoradas que as oferecidas pelos jornais e grandes meios de comunicação. Nesta hora seria interessante imaginar o que diria Sartre diante de tal fato. Por enquanto é rezar: volte Sartre, volte!

terça-feira, 3 de julho de 2007

Nota triste na Universidade Pública: 20/06/2007

Profa. Dra. Roseana Costa Leite
Departamento de Ciências da Educação
Faculdade de Ciências e Letras
UNESP campus de Araraquara

Faculdade de Ciência e Letras é uma instituição acadêmica pública, o que significa dizer que é o local privilegiado da socialização e produção do conhecimento historicamente acumulado pela sociedade, no interesse do bem estar de todos. Ou seja, a academia deve assentar-se sobre o livre debate de idéias fundadas na razão, mas aquela razão de fundo humanista, da qual nos falava o dramaturgo Betrold Brecht na peça Galileu Galilei, Eu acredito na força suave da razão.

Portanto, por princípio sua defesa deve ser a livre articulação das idéias e o estabelecimento de espaços de discussão das mesmas, um debate que tem como compromisso maior os destinos humanos. Portanto, sua diretriz deve ser sempre a do diálogo incessante, quando mais porque é
instância social de formação daqueles que vão tecer as tramas sociais. Deve ser espaço de reflexão e permitir uma leitura crítica da realidade social, possibilitar que pessoas em formação possam entender o mundo que os circunda e situar-se nele. E dessa maneira, desenvolver consciência de si e de sua atuação social.

A Faculdade é pública também no sentido de que deve ser sensível às demandas sociais, quer dizer, tem um compromisso com o conjunto da sociedade sem qualquer distinção. Esta comunidade acadêmica composta por professores, funcionários e alunos possui uma organização representativa e uma direção. A direção lidera esta comunidade e como tal deve pautar sua atuação ao lado dos órgãos colegiados.

Desta perspectiva o que representou a desocupação dos estudantes alojados na sala da diretoria da FCL, há seis dias, por um contingente de 180 policiais que incluía tropa de choque, policiais militares e civis e até cadetes, na madrugada do dia 20 de junho? Significou, independente da avaliação ou julgamento que possa ser feita da ação dos noventa e dois estudantes qualificados em um Distrito Policial de Araraquara, que a direção da Faculdade, com o apoio e respaldo da Congregação, instância máxima de deliberação na instituição, declarou-se incapaz de exercer sua liderança, assim como a maioria dos professores declararam-se incapazes de resolver um conflito no espaço interno da instituição, pelo debate, diálogo e negociações.

Pergunto-me sobre a conjunção de forças que permitiu que um comando militar se impusesse como autoridade maior numa instituição acadêmica, que deveria ser sustentada pelo diálogo e pelo livre debate de idéias e opiniões. Ainda mais, quando se considera o cuidado com que tem sido tratadas as ocupações das outras universidades públicas paulistas, USP e UNICAMP, e mesmo de outras faculdades da UNESP.

Porque muitos consentimentos foram dados e compromissos firmados para que a invasão da faculdade pela polícia ocorresse e de forma tão ágil. Foi preciso a ação do diretor e anuência da Congregação, que representa a comunidade acadêmica, do Reitor da Universidade, do comando militar regional e da secretaria de segurança estadual. Foi preciso ainda uma interpretação favorável ao pedido de reintegração de posse, em termo recorde de dois dias, de um juiz de direito e a ausência de qualquer manifestação pelo executivo e legislativo municipal, bem como do ministério público ou da sociedade civil organizada.

Na comemoração dos cinqüenta anos da FCL, que se orgulha de já ter recebido Sartre, que lição estamos ensinando aos jovens? Num tempo de crises profundas em que a destruição em larga escala do meio ambiente ameaça a própria vida e o planeta, em nome do avanço tecnológico a serviço do grande capital; num mundo de incertezas em que a violência parece predominar, numa economia baseada na guerra, e os fios sociais esgarçam-se; num tempo em que os princípios democráticos e republicanos parecem ameaçados, como atestam os escândalos recentes envolvendo legislativo, executivo e judiciário, o que nós, todos nós, estamos a ensinar? O autoritarismo, o uso da força na resolução de conflitos, a discriminação, a passividade, a obediência alienada? Estamos ensinando aos jovens, a quem pretendemos formar, que a política é um espaço destinado a adultos sérios e que devem aproveitar a vida e esperar o tempo passar?
E como ensinar e aprender e exercitar o diálogo, o livre debate de idéias, as soluções negociadas, a tolerância, que pressupõem relações de confiança e de cooperação num ambiente invadido pela ameaça, pelas delações e por decisões autoritárias?

A responsabilidade é de todos, pois como tentava conscientizar um movimento docente argentino, há mais de uma década atrás, com professores acampados em greve de fome nas imediações do Legislativo e Judiciário argentinos, Somos todos docentes. E, se como dizia Guimarães Rosa, mestre é quem de repente aprende, temos todos lições a retirar do episódio abordado.

Roseana Costa Leite
uma educadora preocupada

Sobre fatos e boatos: A Universidade evacuada

Profª Ângela Viana Machado Fernandes.
Deptº de Ciências da Educação
UNESP Araraquara

Há um tempo atrás, quando fui convidada a desenvolver um trabalho junto à polícia militar, sobre prevenção as drogas nas escolas, obtive a informação de que existia um trabalho que já estava (está) sendo desenvolvido pela polícia nas escolas públicas denominado PROERD. Este projeto tem o objetivo de prevenir o uso de drogas por crianças e adolescentes.

Naquele momento fiquei surpresa, pois entendia (entendo) que educação, prevenção devia (deve) ser feita pelos professores, ou seja, por quem faz parte do processo educativo e que a polícia não devia (deve) entrar na escola pública. Entretanto este espaço foi ocupado pela polícia, pois os professores assim permitiram.

Em outro momento, fui convidada a dar um módulo de aulas aos guardas municipais de Araraquara no intuito de esclarece-los sobre as características da criança e do adolescente e que tipo de projeto poderiam desenvolver junto à comunidade. Em um curso de 30 horas (se não me engano) não consegui cumprir o objetivo, tal o desinteresse pela educação e o desrespeito pela minha pessoa por parte dos alunos. Ingenuamente acreditava que poderia contribuir para que a guarda municipal tivesse um olhar diferente sobre o que é ser cidadão e quais direitos devem ser assegurados.

Este mês foi um mês cheio de turbulências em minha vida. Primeiro porque faço parte de um grupo que desde o ano passado redigia um estatuto para a criação da Comissão de Direitos Humanos em Araraquara, dado ao desrespeito policial pelos cidadãos que não usam crachá e pela morte de dois jovens no Jardim das Hortências.

Ás vésperas do feriado de Corpus Christi, recebi um telefonema de uma aluna que pedia ajuda, pois um de nossos alunos, professor do CUCA de Boa Esperança, havia sido espancado por dois policiais naquele município. Este aluno, dado seu capital cultural, fez exame de corpo delito, foi à delegacia e denunciou os policiais, que o levaram em viatura a uma rua deserta e lhe deram uma surra, pois este mesmo aluno ao assistir uma abordagem (como na gíria policial) violenta, comentou que só faziam isso, pois estavam fardados.

Após este episódio, quando da tomada da sala da direção por alunos, fui a uma Congregação e solicitei que os docentes ali presentes pensassem bem sobre o que seria abrir um precedente de entrada da polícia na Universidade. Isso foi colocado, pois eu já sabia, através de denúncias o que estava ocorrendo dentro da FEBEM, hoje Fundação Casa.

Enfim, esta semana, na terça de madrugada, na calada da noite a polícia invade a FCL e retira “sem violência” os alunos e os leva para o 5° DP. A partir daí todos sabemos o que aconteceu. Na quarta-feira não consegui trabalhar, um gosto acre invadia meu corpo e um choro contido de não sei o que.

Ontem fui á FCL e fiquei das 13.00hs até as 17.20hs, quando saí para uma reunião do Grupo de Direitos Humanos. Senti que mesmo o cotidiano já diferente, nada de fato ocorria. Dia comum matrícula de pós-graduandos, algumas orientações. E, infelizmente, por volta das 18.00, soube por professores e alunos que não poderiam entrar no Campus, pois a polícia impedia a entrada de qualquer um. A Universidade havia sido evacuada. O boato de que um ônibus vindo da USP poderia chegar ao Campus (O que fariam eles? Estariam armados? Quebrariam a universidade?).O boato tomou conta do fato e de novo senti aquele gosto acre e um enjôo que não me abandou durante a noite. Eu não acredito na polícia dentro da escola pública e tão pouco na Universidade Pública e não posso apoiar que haja a evacuação da Faculdade desde que não haja riscos para as pessoas que ali estão, ou será que estamos no Iraque?

Sobre a desobediência civíl

Prof. Dr. Pablo Ortellado
Escola de Artes, Ciências e Humanidades
Universidade de São Paulo

Diante das manifestações de membros da comunidade acadêmica, inclusive de cientistas sociais, desqualificando a estratégia de desobediência civil e ação direta adotada pelos estudantes da Universidade de São Paulo que ocuparam a reitoria, gostaríamos de chamar atenção para alguns pontos.

Os críticos da ocupação enquanto estratégia argumentam que ela fere não apenas o princípio da legalidade, como também a civilidade e o diálogo e que, portanto, trata-se apenas de uma ação violenta, autoritária e criminosa.

As instituições civilizadas que esses críticos defendem, do voto universal para cargos legislativos até os direitos trabalhistas e as leis de proteção ambiental foram frutos de ações diretas, não mediadas pelas instituições democrático-liberais: foram greves (num momento em que eram ilegais), foram ocupações de fábricas, foram bloqueios de ruas. Não é possível defender o valor civilizatório destas conquistas que criam pequenos bolsões de decência num sistema econômico e político injusto e degradante e esquecer das estratégias que os mais fracos utilizaram para conquistá-las. Ou será que tais ações só passam a ser meritórias depois de assimiladas pela ordem dominante e quando já são consideradas inócuas?

As ações diretas que desobedecem o poder político não são um mero uso de força por meio dos mais fracos, mas um uso que aspira mais legitimidade que as ações daqueles que detêm o controle dos meios legais de violência. Talvez fosse o caso de lembrar, mesmo para os cientistas sociais, que nossas instituições democrático-liberais são instrumentos de um poder que aspira o monopólio do uso legítimo da violência. Há assim, na desobediência civil, uma disputa de legitimidade entre a ação legal daqueles que controlam a violência do poder do estado e a ação daqueles que fazem uso da desobediência reivindicando uma maior justiça dos propósitos.

Os críticos da ocupação da reitoria, em especial aqueles que partilham do mesmo propósito (a defesa da autonomia universitária), podem questionar se a ocupação está conquistando, por meio da sua estratégia, legitimidade junto à comunidade acadêmica e à sociedade civil. Esse é um dilema que todos que escolhem este tipo de estratégia de luta têm que enfrentar e que os ocupantes estão enfrentando. Mas desqualificar a desobediência civil e a ação direta em nome da legalidade e da civilidade das instituições é desaprender o que a história ensinou. Seria necessário também lembrar que mesmo do ponto de vista da legalidade, nossas instituições não vão tão bem?

Independente de como a ocupação da reitoria termine, ela já conseguiu seu propósito principal: fomentar a discussão sobre a autonomia universitária numa comunidade acadêmica que permaneceu apática por meses às agressões do governo estadual e que só acordou com o rompimento da ordem.

Carta de Araraquara

Em reunião realizada em 26 de junho de 2007, com a presença do Prefeito Edson Antônio Edinho da Silva, do Magnífico Reitor da UNESP, Professor Doutor Marcos Macari, do Diretor da FCL-CAr, Professor Doutor Cláudio Benedito Gomide de Souza, do Diretor da Faculdade de Farmácia e atual Presidente do Conselho Diretor do Campus de Araraquara, Professor Doutor Iguatemy Lourenço Brunetti, bem como de representantes da ADUNESP, SINTUNESP e do Movimento Estudantil de Araraquara, foram debatidas questões acerca do momento pelo qual passa a FCL de Araraquara.

Com a concordância de todos os presentes, ficou assegurado o seguinte:

A) que a reitoria da UNESP, bem como as diretorias da FCL e da FCF reiteram a sua crença no processo democrático e reconhecem a legitimidade do movimento estudantil na defesa das Universidades Públicas Paulistas;

B) que há consenso quanto ao não estabelecimento de qualquer processo de caráter punitivo, seja ele a abertura de sindicância ou o que for, contra o movimento de greve e de ocupação da diretoria da FCL de Araraquara, uma vez que, conforme declara o Diretor da Unidade, a desocupação ocorreu pacificamente e não houve qualquer dano ao patrimônio público;

C) que a partir desta reunião todos se comprometem a estabelecer fórum permanente de diálogo entre os segmentos da Universidade;

D) que o Diretor da FCL de Araraquara se compromete a colocar na pauta da Congregação extraordinária, a ser realizada sexta-feira, dia 29/06/2007, a discussão da Portaria 002/006, expedida em 14 de fevereiro de 2006;

E) a manifestação favorável, por parte do Reitor, quanto à revogação da Portaria 002/06, propondo que o Diretor leve essa posição à Congregação, mas ressalvando porém o compromisso da Reitoria de não ingerência nas decisões da unidade;

F) que seja reconhecida a paralisação dos alunos na elaboração do Calendário escolar de reposição de aulas.
Houve também consenso quanto aos avanços no diálogo interno entre os diversos segmentos que compõem a Universidade, tendo sido reconhecido por todos a importância da Atitude da Prefeitura de Araraquara ao sediar essa discussão e anunciar, no final dela, a sua decisão de doar o terreno – ao lado da moradia da Unesp de Araraquara – para que possam ser construídos novos blocos.

Finalmente, todos reiteraram a sua crença na importância das Universidades Públicas Paulistas aqui representadas pelo Câmpus da UNESP em nossa cidade, e a disposição de lutar para que se consolide de forma, cada vez mais profunda, uma convivência democrática e o diálogo construtivo entre todos os setores que compõem a Universidade.

Dr. Edson Antônio Edinho da Silva, Prefeito de Araraquara
Prof. Dr. Marcos Macari, Reitor da UNESP
Prof. Dr. Cláudio Benedito Gomide de Souza, Diretor da FCL-CAr
Prof. Dr. Iguatemy Lourenço Brunetti, Diretor da FCF-Ar
Dr. Milton Vieira do Prado Junior, Presidente da ADUNESP
Dr. João da Costa Chaves Junior, Secretário Geral da ADUNESP
Profa. Dra. Maria Orlanda Pinassi, convidada pela ADUNESP
Sr. Alberto de Souza, Coord. Político do SINTUNESP
Sr. Aluízio Monteiro Junior, convidado pelo SINTUNESP
Sra. Júlia Maria de Siqueira Eid, Representante Discente da FCL-CAr
Sra. Lara de Mendonça Spoto, Representante Discente da FCL-CAr
Sra. Camila Pereira de Abreu, Representante Discente da FCL-CAr