terça-feira, 3 de julho de 2007

Nota triste na Universidade Pública: 20/06/2007

Profa. Dra. Roseana Costa Leite
Departamento de Ciências da Educação
Faculdade de Ciências e Letras
UNESP campus de Araraquara

Faculdade de Ciência e Letras é uma instituição acadêmica pública, o que significa dizer que é o local privilegiado da socialização e produção do conhecimento historicamente acumulado pela sociedade, no interesse do bem estar de todos. Ou seja, a academia deve assentar-se sobre o livre debate de idéias fundadas na razão, mas aquela razão de fundo humanista, da qual nos falava o dramaturgo Betrold Brecht na peça Galileu Galilei, Eu acredito na força suave da razão.

Portanto, por princípio sua defesa deve ser a livre articulação das idéias e o estabelecimento de espaços de discussão das mesmas, um debate que tem como compromisso maior os destinos humanos. Portanto, sua diretriz deve ser sempre a do diálogo incessante, quando mais porque é
instância social de formação daqueles que vão tecer as tramas sociais. Deve ser espaço de reflexão e permitir uma leitura crítica da realidade social, possibilitar que pessoas em formação possam entender o mundo que os circunda e situar-se nele. E dessa maneira, desenvolver consciência de si e de sua atuação social.

A Faculdade é pública também no sentido de que deve ser sensível às demandas sociais, quer dizer, tem um compromisso com o conjunto da sociedade sem qualquer distinção. Esta comunidade acadêmica composta por professores, funcionários e alunos possui uma organização representativa e uma direção. A direção lidera esta comunidade e como tal deve pautar sua atuação ao lado dos órgãos colegiados.

Desta perspectiva o que representou a desocupação dos estudantes alojados na sala da diretoria da FCL, há seis dias, por um contingente de 180 policiais que incluía tropa de choque, policiais militares e civis e até cadetes, na madrugada do dia 20 de junho? Significou, independente da avaliação ou julgamento que possa ser feita da ação dos noventa e dois estudantes qualificados em um Distrito Policial de Araraquara, que a direção da Faculdade, com o apoio e respaldo da Congregação, instância máxima de deliberação na instituição, declarou-se incapaz de exercer sua liderança, assim como a maioria dos professores declararam-se incapazes de resolver um conflito no espaço interno da instituição, pelo debate, diálogo e negociações.

Pergunto-me sobre a conjunção de forças que permitiu que um comando militar se impusesse como autoridade maior numa instituição acadêmica, que deveria ser sustentada pelo diálogo e pelo livre debate de idéias e opiniões. Ainda mais, quando se considera o cuidado com que tem sido tratadas as ocupações das outras universidades públicas paulistas, USP e UNICAMP, e mesmo de outras faculdades da UNESP.

Porque muitos consentimentos foram dados e compromissos firmados para que a invasão da faculdade pela polícia ocorresse e de forma tão ágil. Foi preciso a ação do diretor e anuência da Congregação, que representa a comunidade acadêmica, do Reitor da Universidade, do comando militar regional e da secretaria de segurança estadual. Foi preciso ainda uma interpretação favorável ao pedido de reintegração de posse, em termo recorde de dois dias, de um juiz de direito e a ausência de qualquer manifestação pelo executivo e legislativo municipal, bem como do ministério público ou da sociedade civil organizada.

Na comemoração dos cinqüenta anos da FCL, que se orgulha de já ter recebido Sartre, que lição estamos ensinando aos jovens? Num tempo de crises profundas em que a destruição em larga escala do meio ambiente ameaça a própria vida e o planeta, em nome do avanço tecnológico a serviço do grande capital; num mundo de incertezas em que a violência parece predominar, numa economia baseada na guerra, e os fios sociais esgarçam-se; num tempo em que os princípios democráticos e republicanos parecem ameaçados, como atestam os escândalos recentes envolvendo legislativo, executivo e judiciário, o que nós, todos nós, estamos a ensinar? O autoritarismo, o uso da força na resolução de conflitos, a discriminação, a passividade, a obediência alienada? Estamos ensinando aos jovens, a quem pretendemos formar, que a política é um espaço destinado a adultos sérios e que devem aproveitar a vida e esperar o tempo passar?
E como ensinar e aprender e exercitar o diálogo, o livre debate de idéias, as soluções negociadas, a tolerância, que pressupõem relações de confiança e de cooperação num ambiente invadido pela ameaça, pelas delações e por decisões autoritárias?

A responsabilidade é de todos, pois como tentava conscientizar um movimento docente argentino, há mais de uma década atrás, com professores acampados em greve de fome nas imediações do Legislativo e Judiciário argentinos, Somos todos docentes. E, se como dizia Guimarães Rosa, mestre é quem de repente aprende, temos todos lições a retirar do episódio abordado.

Roseana Costa Leite
uma educadora preocupada

Um comentário:

Unknown disse...

Os professores que se dispõem a refletir sobre questões como esta são uma das poucas coisas que ainda me dão esperança com relação à universidade pública no Brasil.

Acho que todo professor tem o dever de se posicionar publicamente com relação ao uso da força policial na nossa universidade.

Bauru continua em mobilização.
Estamos com Araraquara!